domingo, 7 de outubro de 2007

O Trânsito

É mais um capítulo que merece destaque, primeiro temos de entender a definição de veículo, meios de transporte com 2 ou mais rodas já são um veículo e passíveis de registro, multas e demais trâmites, vejam bem quando escrevi duas rodas, estou incluindo as bicicletas, o que? Bicicletas também são multadas e registradas no Japão? Exatamente, elas são consideradas meios de transporte, quando você compra um veículo (no caso a bicicleta) é expedido um registro pela loja, se você estiver andando pela rua, for parado pela polícia e não estiver com a documentação em dia, é cana, entenderam por que não é interessante roubar as bicicletas que dormem na rua?

Além disso com o nível de renda aqui você compra uma boa bicicleta no primeiro mês, para que “emprestar” aquela do vizinho? O que pode acontecer, às vezes, é um cara está saindo do shopping e o tempo ameaça chuva, ele olha ao redor, vê uma bike legal, pega a sua “emprestada” para correr até a própria casa, chegando lá deixa a bike largada na rua, não foi roubo apenas uma “carona”, um dia quando você estiver andando pelas redondezas irá deparar-se com sua amiga novamente. As bicicletas são tratadas com tanta seriedade aqui, que é preciso pedir permissão à direção da fábrica para usar um espaço de estacionamento dentro das instalações da sony, esta permissão será por escrito, o funcionário usará um selo na bicicleta e deverá solicitar a permissão com pelo menos 1 semana de antecedência, para que a mesma seja analisada e aceita.
Quando estiver usando a bicicleta as rigorosas leis de trânsito entram em vigor, andando por uma rua estreita (sem calçadas) com outros veículos, siga sempre pelo lado esquerdo da via, você deverá sinalizar com as mãos o que pretende fazer nos próximos cruzamentos, assim como os motoristas e motociclistas, é proibido levar outra pessoa na garupa e também transitar com 2 ou mais bicicletas lado a lado, devem seguir em fila indiana. Outra coisa, se transitar à noite, precisa ter um farol iluminando sua bicicleta e não deve trajar roupas escuras.

O trânsito segue a mão inglesa, ou seja, volantes do lado direito e veículos trafegando pela esquerda nas pistas (inclusive pedestres e ciclistas, quando não houver calçada). O rigor das vistorias municipais “obriga” a frota japonesa a manter-se nova, quando vemos carros velhos, estão largados em pátios e estacionamentos, os antigos donos os abandonaram ali não querendo ser multados nem pagar seu reboque, é mais barato abandonar e comprar outro. As ruas são bem sinalizadas e asfaltadas, até agora contei apenas dois buracos pelas ruas por onde passei, e mesmo assim, se comparados aos buracos do Brasil, tenho certeza de que os brasileiros ficariam felizes se os seus buracos fossem do mesmo tamanho dos daqui.

As ruas de Okazaki (ou rotas) não são identificadas por nomes mas por números, por outro lado os pontos de ônibus e estações de trem possuem nomes. As estradas vicinais são muito estreitas, várias não possuem nem calçada e se dois carros passarem lado a lado é preciso prender a respiração, nas esquinas das vias estreitas e nas saídas das garagens, existem espelhos côncavos para ajudar a ver se alguém está vindo em sentido contrário. As leis e multas são pesadíssimas, exemplos: se for pego dirigindo embriagado é multa na certa e todos que estiverem no veículo serão enquadrados como cúmplices, mesmo aqueles que não possuírem habilitação para dirigir, se causar um acidente embriagado então, nem é bom pensar nas conseqüências. Dirigir sem habilitação é cana na certa, várias empreiteiras costumam demitir os funcionários que dirigem de forma errada, sem habilitação ou compram veículos roubados / ilegalmente. O rigor quanto a evitar barulho também vale para o trânsito, é muito difícil ouvir sons de buzina, mesmo nas ruas mais movimentadas, quando isso acontece tenham a certeza de que alguém cometeu uma imensa barbaridade, apesar do grande número de veículos circulando e das ruas estreitas, ainda não vi um engarrafamento na cidade, há momentos de concentração sim, mas nada que chegue perto dos problemas nas marginais de SP ou das avenidas do RJ.

Há uma hierarquia rígida com prioridade para o pedestre, depois o ciclista, lambretas, motos normais, motos pesadas, carros e depois caminhões e ônibus. Se um pedestre colocar o pé na faixa de travessia os demais veículos devem parar, salvo se o semáforo indicar que está fechado para pedestres (no caso das pistas maiores ou cruzamentos perigosos). Se estiver andando de bicicleta e atropelar um pedestre, poderá ter sérios problemas, lembre-se que a bicicleta aqui é um meio de transporte registrado, logo seu condutor está sujeito a leis severas pelo mau uso. Se o pedestre for atropelado por qualquer tipo de veículo e ficar incapacitado de trabalhar ou morrer, quem causou o dano pagará uma indenização milionária, acho que a menor indenização aqui é 500 mil ienes, ou seja, uns 9 mil reais. Qualquer pessoa que deseja comprar um veículo deve contrair um seguro antes de tirar o veículo da loja.

Os preços dos carros são bastante acessíveis, principalmente os carros comuns, por 22000 reais você encontra facilmente carros de 1500 cilindradas, com gps e navegador, ar condicionado, vidros e travas elétricas, direção hidráulica, câmbio automático e aparelho de som, como o Toyota da minha vizinha, carros populares não costumam passar de 15000 reais, com 9 ou 10 meses de trabalho os funcionários das fábricas já estão em condições de juntar recursos para comprar um, pelo que já vi do transporte público aqui, carro não me fará falta. Algumas cidades como Okazaki, preocupadas com a poluição, proíbem carros de passeio que operam com diesel, portanto quando tiver seu carro, antes de mudar de cidade, veja se ele será aceito na nova cidade. O navegador que citei acima merece um adendo, em muitos veículos é colocada uma câmera na traseira, quando você dá uma ré ela é ligada, o que for captado por sua lente será exibido na tela do navegador, desta forma o motorista verá com clareza se há algo ou alguém atrás de seu veículo. Estando no Japão saiba que a ignorância no conhecimento de uma lei, não é desculpa para infringí-la, depois que errou, alegar que não sabia, em nada contribuirá para diminuir sua punição, em hipótese alguma tente passar aquela conversa e jeitinho brasileiro, oferecer um cala boca ao guarda provavelmente o levará a ser enquadrado por tentativa de suborno, o que agravará mais a sua situação.

Onde Moro

Moro em Aichi-Ken (província de Aichi), Okazaki-Shi (cidade de Okazaki), meu prédio chama-se Kopo dai Matsu e o bairro é Kitahane. Aqui no Japão a província tem um valor semelhante ao de um estado no Brasil, em Aichi a capital da província chama-se Nagoya e é uma das maiores cidades do Japão. Okazaki deve ter umas 350 mil pessoas, e muitas delas são brasileiras, de trem Okazaki fica a uns 30 minutos de Nagoya, e chegando lá temos trens bala para qualquer lugar do país, além de um aeroporto internacional com vôos para qualquer lugar do mundo.

Meu apato (apartamento) é grande para os padrões japoneses, temos 3 quartos, cozinha, banheiro e uma pequena varanda para estender as roupas. Meu prédio tem 4 andares e moro no último andar, de certa forma posso dizer que moro na cobertura. Aqui é comum dividir o apato com outras pessoas, como uma república, atualmente divido a moradia com outra pessoa, ele já está no Japão a quase 8 anos, como um dos quartos está vazio, em breve deveremos receber um 3º morador. Detalhes interessantes da arquitetura nipônica, a latrina e o local de tomar banho são aposentos separados, os quartos são separados mas as portas não possuem fechaduras ou trancas, ou seja, cuidado com o que deixa em casa, na entrada de todos os apatos e casas, há um espaço para que deixe os calçados que usou na rua, existem muitos modelos de sapateiras ou mesinhas, dentro dos lares japoneses você usa meia, chinelo ou fica descalço. Quase esqueço, as portas dos lares japoneses sempre abrem para fora de casa.

Embora meu prédio seja velho, sua localização é excelente, num raio de 15 minutos de caminhada existe: shopping center, delegacia de polícia, estação de trem, vários supermercados, a sede da minha empreiteira, o correio central da cidade, o belo parque municipal com piscina e quadras de tênis públicas, lojinhas de conveniência com produtos brasileiros, várias concessionárias de veículos, pizzaria brasileira e o ponto de ônibus para levar-me ao trabalho.
Aos poucos vou conhecendo o lugar, descobri um barzinho a pouco mais de 30 minutos de casa onde os donos e a temática é brasileira, nele temos uma karaokê num belo telão, as opções musicais até são variadas, na primeira vez que fui com dois amigos, ficamos cantando Legião Urbana, Barão Vermelho, Gonzaguinha, Ivan Lins, Clara Nunes, Chitãozinho e Xororó, por quase uma hora ficamos cantando sozinhos, mas de repente o lugar lotou e aí houve um rodízio de pedidos e microfones, por volta da meia noite chegou uma senhora japonesa (com uns 70 anos de idade), ela morava perto do bar pelo que disseram, e todas as noites vinha ao lugar, nesta noite especificamente ela estava completamente bêbada, ficava tentando dançar, falava com os brasileiros presentes, flertava com o garçon, e ainda bebeu mais biiru (cerveja) numa mesa ao lado da minha. Em outro ponto do bar, uma mesa com 10 pessoas comemorava os aniversários de 3 pessoas, levaram bolo, cantaram parabéns para você, e dividiram o bolo com todos os presentes.

O Clima na Minha Cidade

Cheguei aqui no final de setembro e surpreendo-me com a temperatura, durante o dia tem feito mais de 30º C, à noite cai para uns 20º C, pelo que me disseram é muito raro cair neve por aqui, mas estamos relativamente perto (umas 3 horas de carro) de uma das estâncias de inverno mais famosas do Japão, refiro-me a Nagano, sede de jogos olímpicos de inverno há alguns anos. Por enquanto as roupas que trouxe do Brasil estão funcionando de forma satisfatória. Têm chovido com alguma freqüência, o que torna a umidade relativa do ar mais alta e aumenta a sensação de abafamento. Já em outubro a temperatura tem sido bem agradável durante o dia, em média 25º C, à noite tem caído para uns 15º C. Aqui no Japão as quatro estações do ano parecem ser muito bem definidas. As ruas ou rotas são bem arborizadas o que certamente deverá causar um belo visual e perfume na primavera.

Existem males que causam certo temor a todos que habitam o Japão, aqui as forças da natureza atuam com freqüência e violência, eu não sabia mas o arquipélago japonês está situado sobre o ponto de encontro de 4 placas tectônicas, o que explica a freqüência dos terremotos, ano passado apenas na província de Shizuoka foram registrados 200 sismos, é claro que a maioria ínfimos, mas sempre há a chance de algo violento acontecer, todas as cidades mantém suas políticas para prevenir isso, treinamentos constantes para resgate, combate de incêndios etc. As escolas e a prefeitura, geralmente atuam como centros de refugiados para estas emergências, portanto é vital cada um conhecer as rotas de suas casas até estes locais, bem como manter uma mochila sempre pronta com seus documentos, dinheiro, algum alimento e água, celular, pilhas e lanterna.

Em 1854 aconteceu um abalo de 7.5 na escala Richter, dizem os especialistas que a cada 150 anos algo assim se repete, eles chamam de TOKAI, bem o prazo já se esgotou, agora não é mais uma questão de SE vai ocorrer, mas ONDE, estimativas feitas com um tremor de 8.0 indicam 1 milhão de pessoas desabrigadas, a região apontada como potencialmente perigosa seria a província de Aichi, onde eu atualmente resido, segundo os mesmos especialistas caso o Fujyama entre em atividade novamente é porque a coisa estará feia lá embaixo. Mas não fico sem dormir por causa disso, balas perdidas no RJ, brigas e assaltos em SP matam mais que os terremotos no Japão. Abalos sísmicos também causam outro problema, as Tsunamis ou ondas de maré, Okazaki fica a mais de 50 km do mar, então neste ponto estou protegido. Tufões também acontecem com freqüência por aqui, no final de setembro um deles passou ao largo e foi parar na China e Coréia.

O Lixo

Merece destaque a grande preocupação dos japoneses com relação ao meio ambiente e a poluição, alguém aí se lembrou do seriado spectreman, aquele do dr. Gori? Cada cidade tem suas próprias normas para lidar com isso, mas via de regra existe a coleta seletiva de lixo. Perto de meu prédio existem dois pontos de coleta, no principal, os próprios moradores do bairro atuam como voluntários para receber e avaliar o tipo de lixo entregue, cada tipo deve ser embalado num saco plástico transparente com a faixa na cor que especifica o tipo de lixo, saco azul é para papel, garrafas pet nos sacos amarelos e plásticos ficam guardados nos sacos com tarja preta. Na minha cidade existe um calendário com validade anual, explicando em português onde, quando e que tipo de lixo você pode se desfizer, por exemplo, temos 8 grandes grupos de lixo a serem conhecidos:

1) Plásticos
2) Papel e papelão
3) Metal
4) Vidro
5) Restos de comida, pano etc
6) Garrafas pet
7) Lixo de grande porte (móveis, eletrodomésticos, e afins)
8) Pilhas, baterias e lâmpadas fluorescentes

Além de colocar o lixo na hora e local certo, no saco da cor correspondente ao tipo de lixo, não é permitido jogar fora embalagens sujas demais, caixas de papelão dos sucos e do leite devem estar lavadas por dentro e secas, bandejas de comida pronta não devem ter restos de comida, e vidros quebrados devem ser embalados com jornal. Lixo de grande porte (móveis, eletrodomésticos e afins), só serão recolhidos se for paga uma taxa e mesmo assim existem dias e locais definidos para isso. Qualquer tentativa de burlar estes regulamentos poderá causar repreensões, multas e até mesmo uma visitinha à delegacia de polícia para maiores esclarecimentos, uma amiga chegou a ser fotografada colocando lixo em horário errado, depois teve de se explicar na delegacia vendo suas fotos, usadas como prova da autoria do “crime”.

Atualmente antes de comprar um alimento ou produto de limpeza, penso um pouco em como vou fazer para jogar fora esta embalagem depois que acabar de consumir, se der muito trabalho nem compro. Os produtos de limpeza e higiene pessoal adotam as embalagens de plástico tradicionais, mas cada produto tem seu refil, assim, depois da primeira compra, você continua reaproveitando a embalagem, joga fora apenas o saquinho do refil. E acreditem isso é comum entre os japoneses. Determinados produtos como baterias de celular e lâmpadas fluorescentes devem ser levadas a pontos de coleta para serem entregues à firma que as produziu, caberá a elas reciclar o material, mas cabe a você entregar no local certo, geralmente mercados e shoppings. Quando você vai ao mercado é incentivado a trazer consigo as mesmas sacolas plásticas que usou na última compra, primeiro por que produzirá menos lixo, segundo por que receberá um desconto nas compras, tudo bem que é um desconto ridículo, mas recebe.

A preocupação com o lixo produzido no Japão se justifica pois a área do país é pequena, mas sua população é numerosa, além disso há um grande estímulo ao consumo por aqui, o alto poder aquisitivo facilita a aquisição de bens e produtos, e isso gera mais e mais lixo. Outro detalhe interessante, se você traz papel higiênico do Brasil não pode usar aqui, não é por preconceito ou nacionalismo, aqui no Japão jogamos o papel higiênico na latrina, ele se degrada facilmente, já o brasileiro causaria entupimentos na tubulação.

Eletrônica e informática fazem parte do dia a dia japonês, velocidade e quantidade de lançamentos deixam as pessoas meio confusas, outro dia numa lojinha da esquina, encontrei um HD com capacidade para 1 TB, isso mesmo 1000 GB, por um preço equivalente a R$ 160,00, também vi um lindo conjunto de telescópio e microscópio com conexão USB para ligar no PC ao custo de uns 300,00 reais, fora a tela de lcd com 50 polegadas por R$ 3.500,00, ligado a ela um lindo Play Station 3 por 800,00 reais, nem vou comentar da grande variedade de notebooks e câmeras digitais. Os japoneses não têm o hábito de pedir desconto nos preços dos produtos, mas os brasileiros sim, aí estes preços podem cair um pouco mais, nós quase sempre pagamos à vista, os nipônicos preferem o crediário, afinal as taxas de juros são ridículas, para os brasileiros fazerem o mesmo, teriam um trâmite burocrático enorme, incluindo a necessidade de fiador.

Não vi cachorro vira lata nas ruas, mas existem muitos gatos, corvos e um pardalzinho extremamente barulhento, no final da tarde eles se reúnem em bandos empoleirando-se nos fios e postes, se o lixo não ficar bem embalado, ou se for jogado de qualquer jeito a qualquer hora, estes bichos iriam revirá-los atraindo mais animais indesejados como ratos e baratas. Andando pelas ruas é muito raro encontrar no chão latas de cerveja, garrafinhas de refrigerante, guardanapos ou as embalagens de doces / sorvetes, pessoas que atirarem tais coisas fora da lixeira, certamente serão advertidas ou mesmo multadas. Viram como o problema do lixo produzido aqui é de vital importância?

O Meu Trabalho

Trabalho na sony de Kota (ou Koda), a pronúncia pode mudar conforme o japonês que fala, mas a escrita é sempre a mesma, esta unidade tem 30 anos de idade e situa-se a pouco mais de 35 minutos de caminhada de meu apartamento, também soube que é uma das maiores do país, na entrada principal lemos em letras garrafais as seguintes palavras: Koda Tec - Campanha ZD (zero defect), atualmente fazemos as câmeras fotográficas digitais ciber shot e as filmadoras com Hd. Estimo que sejamos uns 5.000 funcionários, deste total pelo menos 50% são brasileiros, espalhados por várias empreiteiras, só a minha contratou quase 1.000 brasileiros. Trabalho no porão, onde uns 80% são brasileiros, mais precisamente na sessão onde são feitas as caixas metálicas que protegem as máquinas fotográficas ciber shot, ela é feita de alumínio escovado e o processo de sua fabricação me impressionou muito, infelizmente por razões óbvias não posso fotografar nada por lá, de forma beeeemmmm sucinta é assim que funciona:

1) Uma bobina de alumínio com 330 kg é encaixada num conjunto de prensas, dispostas em linha, elas cortam e fazem o tratamento inicial nas peças, depois que cada placa chega até o meu setor, deve ser rigorosamente avaliada, qualquer arranhão, mancha ou deformidade, mesmo que de alguns milímetros condena imediatamente a peça.
2) Da minha mão a peça faz um passeio por um tanque de água com um esmeril, é feita uma nova lavagem e escovamento da placa.
3) A placa recebe um tratamento químico para reforçar o alumínio tornando-o menos maleável. Logo depois um laser de alta potência imprime um número de registro na superfície da placa, ele é muito poderoso e segundo me avisaram, olhar prolongadamente para o reflexo dele numa parede poderá deixá-lo cego.
4) Agora a peça recebe um banho de ácido para tornar sua superfície mais propícia à pintura, a seguir é pintada, aqui temos duas opções de cor, preto ou prata.
5) São gravados alguns dizeres na superfície da peça e ela é envernizada, depois segue para um superforno de cerâmica, onde será feita secagem final.
6) Novas avaliações e detalhes ainda serão feitos, mas já serão fora do meu setor.

Para que tenham uma idéia de como é o local onde trabalho, basta assistirem ou lembrarem-se dos minutos finais de O Exterminador do Futuro 1, quando Sarah Connor invade as instalações da ciberdyne e luta contra o robô assassino, é exatamente aquilo, tirando é claro o robô assassino, o Michael Biehn e a Linda Hamilton. A rotina é dura, ficamos de pé quase todo o tempo, fora os 40 minutos de almoço e 2 intervalos de 10 minutos ao longo do dia, como estamos com um modelo novo e a linha de montagem está a pleno vapor, atualmente meu setor trabalha 24 horas / dia, revezando as turmas em dia e noite, freqüentemente somos requisitados para fazer hora extra, na minha primeira semana, fiz uma média de 3 horas extras por dia, entrava às 08:00 da manhã e saía às 08:00 da noite. Atualmente fico revezando nos horários, numa semana trabalho das 08:15 da manhã até as 20:30, na outra semana mudo para as 20:30 até as 08:15 da manhã seguinte, este tipo de jornada de trabalho é chamada Kotai.

Aqui os funcionários devem estar sempre prontos para o inesperado, as mudanças de horário, função e setor acontecem sem aviso prévio, num mesmo dia você poderá atuar em vários setores ou funções, nos meus primeiros 15 dias, já fui designado para executar umas 20 tarefas diferentes, isso é muito útil para a empresa quando, por exemplo, uma máquina ou linha de montagem quebra ou precisa de manutenção, assim você não ficará parado de braços cruzados, para o funcionário é bom por que não ficará fazendo repetidamente o mesmo trabalho. Por outro lado, é praticamente impossível assumir compromissos, você nunca saberá com certeza, a que horas será dispensado para ir embora para casa, horas extras podem ser colocadas ou removidas durante o expediente.

Meu contrato de trabalho especifica o valor da hora trabalhada, diferente do Brasil, aqui não existe o descanso semanal remunerado, férias remuneradas, 13º salário, nem mesmo a hora de almoço é paga, você só recebe pelas horas que efetivamente trabalhou e ponto final. As férias não são de 30 dias corridos, mas em pequenos grupos ao longo do ano, sendo que 10 dias/ano são garantidos ao funcionário ou comprados, por exemplo, meu setor faz uma compensação de horas, trabalhando 2 sábados em novembro, para ficar toda a semana do natal em casa. Faltar ou chegar atrasado não é uma falta grave, mas fazer isso e não avisar ao seu chefe imediato pode custar-lhe a cabeça, se tiver problemas a resolver e for se atrasar ou precisar sair mais cedo, informe ao seu chefe antes. Eventualmente algumas empresas concedem abonos por assiduidade ou prêmios quando as cotas de produção são atingidas, mas isso depende de cada setor negociar com a empresa.

Os japoneses começam aos poucos a “confiar” mais tarefas aos brasileiros, serviços que eram feitos exclusivamente pelos nativos já são ensinados aos nikkeis. Os chefes japoneses freqüentemente observam os trabalhadores do setor, às vezes chegam de mansinho, fingindo que analisam uma máquina ou peça, mas na verdade observam você, às vezes de forma bem clara ficam te vigiando, por vezes só de longe avaliando e conversando entre si, trocando impressões e críticas sobre os subordinados. Pode ser apenas impressão minha, mas no turno da noite eu reparei que os chefes japoneses somem de tempos em tempos, não ficam tão perto dos funcionários como no turno da manhã, sinceramente acredito que eles dão uma escapulida para tirar um cochilo e voltar mais tarde para fazer uma ronda e acompanhar os trabalhos.

O controle de qualidade das peças é muuuuuito rigoroso (por vezes até demais), sinceramente isto gera certa neura nos trabalhadores, de tempos em tempos parece melhor apontar um defeito inexistente numa peça a mandá-la para frente ininterruptamente. Existem casos onde a peça é condenada, minutos depois o mesmo “problema” não causa sua condenação, freqüentemente eu ouço: “Se piorar muito jogue fora”, mas quanto é MUITO? Como não sou pago para pensar, sempre que tenho dúvida mostro ao meu chefe de linha antes de mandar para frente. Já vi alguns casos onde o controle de qualidade deixou passar uma peça até os estágios finais de montagem, quando chegou lá houve um retorno, e todas as peças daquele lote tiveram de ser reavaliadas, gerando atraso de um dia na produção, também ouvi relato de um recall em câmeras filmadoras prontas para embarcar no porto de Nagoya, obrigando a sony a alugar um galpão, pagar trocentas horas extras à sua equipe, evitando assim que um grande carregamento prosseguisse com defeito de fabricação. Outra coisa curiosa, se não tiver o que fazer finja estar ocupado, pegue uma peça e fique olhando para ela, mesmo que não esteja procurando nada, mexa em alguma esteira ou linha de peças, varra o chão, faça alongamento, mas em hipótese alguma fique parado, ponha as mãos no bolso ou cruze os braços, estes atos são tidos como desleixo pelos nipônicos.

O mercado japonês é muito exigente com a qualidade dos produtos que são comercializados dentro de seu território, e isso vale para os produtos importados também. No entanto quando os japoneses exportam os seus produtos, nem sempre mantém a reciprocidade, fui aconselhado a nunca comprar produtos japoneses “tipo exportação”, primeiro são mais caros que os similares “nacionais”, segundo e principalmente, estes produtos costumam ser aqueles onde as peças apresentam algum defeito de fabricação, amassados, riscos etc. Nem sempre será um defeito crítico, mas dificilmente o equipamento terá a qualidade plena de funcionamento. Comprando produtos japoneses você poderá ter dificuldades com o manual, mas muitos dos produtos acabam tendo um manual lançado num site da internet em Inglês e até mesmo Português, é só uma questão de procurar ou ter um pouco de paciência de esperar.

Dentro da fábrica, perto do refeitório principal, existe uma quadra multi-esportiva que fica à disposição dos funcionários nos fins de semana, seu uso é gratuito e deve ser agendado um horário com a administração, quando fui olhar a instalação fiquei boquiaberto, é uma quadra com nível olímpico, tirando as arquibancadas.

Quanto à comida não tive muitos problemas, dentro da sony há um refeitório enorme, todos os dias há um prato brasileiro, pelo menos para os olhos nipônicos, às vezes eles fazem macarrão com salsicha, arroz e feijão, às vezes hambúrguer com batatas fritas, arroz e feijão, mas é aceitável, já comi coisa muito pior quando estive no exército, também temos os tradicionais yakissobas, peixes e culinária japonesa. Quando você vai ao refeitório utiliza um cartão chamado Edy, é parecido com um cartão de crédito, ele é lido pelas máquinas que ficam junto aos pratos que deseja comer, imediatamente fica registrado o valor que você consumiu, de tempos em tempos você pode recarregar com dinheiro o seu cartão, existem várias máquinas espalhadas pela fábrica com esta finalidade. As comidas japonesas parecem ser feitas com a preocupação da saúde, geralmente contém pouco sal e os doces pouco açúcar, mas aos poucos começo a me acostumar com isso, existem , no entanto algumas discrepâncias, a fanta uva é parecida com a do Brasil, mas a fanta laranja é intragável, tem a cor e o gosto de cebion. O único senão do refeitório é quando pegamos o turno da noite (Yakin), neste horário existem pouquíssimas opções, aí é melhor levar algo de casa.

Quando estou em casa existem bandejas de comidas prontas no mercado, os preços são um pouco mais altos que os praticados no refeitório da sony, mas sempre é possível formar um prato razoável por 500 ou 600 ienes, 8 ou 10 reais, além é claro dos inúmeros serviços de entrega de comida pronta, feitos por e para brasileiros, também na faixa dos 600 ienes. Existe uma pizzaria brasileira a 5 minutos de casa, mas os preços das pizzas são beeem salgadas, em média 40 a 50 reais cada, dependo do sabor e do tamanho.

A Sociedade Japonesa

Não acredito que exista no planeta terra uma sociedade perfeita, afirmo isso mesmo sem conhecer todos os países do mundo, mas os japoneses se esforçam para manter um mínimo de ordem e civilidade no trato com as pessoas, mesmo nas camadas mais pobres. Ainda não fiz um passeio completo pela cidade de Okazaki, mas não vi (pelo menos até agora) nenhum mendigo, fosse na rua, fosse sob as pontes ou em alguma passagem subterrânea, o que atesta o alto poder aquisitivo da sociedade japonesa.

Quando você faz uma compra (independente do montante e da quantidade de itens), a pessoa que estiver operando a registradora repete em japonês o valor que está sendo somado pela máquina, assim você pode acompanhar visualmente na tela do caixa e sonoramente, ao final é dito o total apurado, quanto você está pagando e quanto será o seu troco. Situado uns 10 minutos de distância à pé da minha casa, existe um shopping chamado JUSCO, mas a pronúncia correta para os japoneses é JASCO, nele temos lojas de eletrodomésticos, roupas, calçados e material esportivo, existe uma loja no 2º andar ou para os japoneses 3º pavimento, aqui não existe o térreo, o nosso primeiro andar é contado como segundo andar para os japoneses, bem voltando ao assunto, existe uma loja neste shopping que vende muitos instrumentos musicais, especialmente violões, baixos, guitarras e teclados, no canto esquerdo da loja há um estúdio onde os clientes podem tocar os instrumentos que desejam levar, acho que você também pode reservar um horário e trazer seus instrumentos de casa para tocar, olhando pela janela vi uma linda bateria, guitarras e baixos, lá dentro 3 japoneses formavam sua banda. Também neste shopping há uma grande loja de departamentos, na seção de brinquedos encontrei uma prateleira repleta de bonecos das antológicas séries dos Ultraman, lá estavam Ultraman, Ultraman Jack, Ultraseven, Ultraman Tarô e claro seus inimigos mortais, Bemlar, Baltan, Seamon, Stelar etc. É claro que também temos seções dedicadas aos transformers, pokemons, e tantos outros bichos que povoaram o folclore televisivo do Japão e do mundo.

Aqui existe um centro de apoio ao estrangeiro com cursos de japonês, voltados especialmente brasileiros, os professores são japoneses e gabaritados para a função, o custo é de 1000 ienes (uns 16 reais) / mês com seis meses de duração, aulas aos sábados das 09:00 às 12:00 horas, brasileiros aqui são como os agentes smith de matrix 3, aparecem em cada esquina, em alguns dias e horários, os brasileiros são maioria no mac donald´s perto de casa, ele já é um point na cidade. Os japoneses atualmente parecem mais interessados em integrar as comunidades de estrangeiros, oferecendo atividades, palestras e muito material de interesse comunitário é impresso em várias línguas, como guias turísticos, calendário de lixo, datas e eventos festivos etc.

Apesar do alto nível de escolaridade do país, e do fato de muitos japoneses terem conhecimento de inglês, usar este idioma para comunicar-se não é uma tarefa das mais fáceis, a razão para esta dificuldade é a pronúncia nipônica para as palavras de língua inglesa, por exemplo: espalhado pela cidade existe uma rede de lojas de conveniência (pode-se comprar comida, bebida, pagar contas ou passar um fax lá), seu nome é “sacroquê” (fonética), seu logotipo é a letra K dentro de um círculo, daí eu consegui traduzir que sacroquê = circle K. Outro caso: trabalho para uma empreiteira chamada “suri-emu” (fonética), seu logotipo são 3 letras M (machine, man e money), sim isso mesmo, suri-emu é o mais perto possível que o japonês consegue dizer para three M. Sabonetes “Lux” = “Raxo”, não existe o fonema “L” no Japão, o U tem a pronúncia do A e japoneses não gostam de consoantes sozinhas no fim das sílabas, logo enfiam um Ô depois do X. Poderia citar vários outros exemplos, visto que no Japão muitas palavras de língua estrangeira estão incorporadas ao dia a dia, nos comerciais de tv, mas acho que todos já perceberam que as coisas aqui podem ser mais fáceis do que aparentam, no entanto um pouco mais complicadas do que poderiam.

Para os ocidentais a grande dificuldade reside na leitura dos kanjis, meu nome é formado por duas palavras apenas, e mesmo assim são utilizados kanji e katakana (dois alfabetos diferentes), Tanaka (o sobrenome sempre vem primeiro) é de origem japonesa portanto é grafado com kanji, Flavio é de origem estrangeira, portanto deve ser usado o katakana, a fonética do meu nome quando um japonês lê seria mais ou menos assim TA-NA-KA FU-RA-BIO, lembrem-se que não existem os fonemas “FLA”, “L” ou “V” no idioma japonês, eles têm um bloqueio natural de emitir estes sons. Também gostaria de salientar que nos aeroportos, estações de trem, placas de trânsito etc, existe uma grande quantidade de informações em inglês e romaji (forma de escrever palavras do japonês sem usar os kanji, forma ocidental), de modo que os estrangeiros tenham uma razoável capacidade de entendimento.

Falando com brasileiros que residem aqui há bastante tempo, descobri que antigamente notava-se certo preconceito quanto aos brazucas, hoje isso diminuiu, nós geramos renda então temos de ser tratados com polidez também. Ouvi relatos de casos onde brasileiros eram identificados até pelos alto-falantes da loja, no momento em que pisavam dentro do estabelecimento, era uma forma de “alarme” aos vendedores, isso parece não existir mais, no entanto se olhar com discrição para trás, verá que um japonês sempre estará por perto “observando sua conduta”, sinceramente isso não me incomoda, podem olhar-me o quanto quiserem. Aquela história de que japonês joga no lixo muitas coisas boas “FOI” verdade, antigamente não existiam lojas de usados, mas com o grande número de brasileiros aqui, os japoneses perceberam que poderiam conseguir recuperar parte do que gastavam ao comprar um bem, hoje os games, pcs, dvds e demais objetos são levados às lojas de usados, você ainda consegue achar coisas boas a bons preços, mas não será grátis, lembrem-se que aqui as novidades pipocam constantemente, o novo de hoje será obsoleto em 30 ou 40 dias.

O japonês tanto quanto ou mais que o inglês preza a pontualidade, o ônibus da sony que passa perto de casa, chega ao ponto religiosamente entre 07:30 e 07:35, quando vou no turno da manhã, cada pessoa que apresenta o crachá da sony é respondida com um cumprimento pelo motorista, quando entram ou saem da fábrica, cada ônibus é saudado com uma continência por quem estiver na portaria, quando embarcarem e desembarcarem, todos os passageiros deverão respeitar a ordem da fila, ou seja, se você é o 5º da fila no ponto do ônibus será o 5º a embarcar, se estiver sentado na última cadeira, será o último a descer do ônibus quando este chegar na fábrica. Se for dito para estar num lugar às 08:00 horas, isto significa exatamente 08:00, não 08:05, muito menos 08:25, quando é determinado para terminar o trabalho às 08:30, nem pense em deixar o seu posto às 08:29, aqui costuma-se dizer que podemos acertar o relógio quando os trens passam, e pelo que vi não é exagero. Quando um trem está atrasado, isto é informado pelos painéis digitais aos passageiros nas estações, detalhando os motivos. O sistema ferroviário do Japão é provavelmente o mais extenso do mundo, talvez perca apenas para os EUA, para que tenham uma idéia, o metrô de Tóquio deve ser umas 15 ou 20 vezes maior que o de São Paulo, existem estações com até 5 ramais operando em paralelo, todos os aeroportos possuem estações em seu interior, além das conexões para os Shinkansen (trens bala), e os ramais regionais (como é o caso de Okazaki).

Diariamente vejo as crianças indo à escola, e seus uniformes de escola pública são bem clássicos, as crianças menores sempre usam boné amarelo, as meninas adolescentes freqüentemente vestem-se como as personagens do animê sailor moon, por via das dúvidas se elas gritarem algo, começarem a emanar auras de energia ao redor de si, vou sair correndo para o outro lado. Outras escolas adotam uma capacete branco como parte do uniforme, quem já assistiu a seriados de Ultraman e afins deve lembrar-se como são. Também é comum (e já está sendo copiado por brazucas) o uso de máscaras quando as pessoas estão gripadas, desta forma diminui-se a chance de espalhar surtos virais.

Os japoneses respeitam as propriedades dos outros, muitos aqui tem bicicleta, e por motivo de espaço elas não são guardadas em casa, e onde elas ficam então? Acertou quem respondeu que elas ficam na rua ou na calçada em frente de casa, e ficam assim soltas. Como é? Soltas na rua sem cadeado ou corrente? Isso mesmo, sem cadeado ou corrente e ninguém pega, quando você vai ao trabalho, escola ou shopping também existem locais para estacionar as bicicletas e pode contar que ao sair ela estará onde você a deixou, adiante explicarei com mais detalhes por que não é comum roubar bicicletas por aqui. Quando você vai a algum lugar com guarda-chuva, também existe um local na entrada do estabelecimento para deixar seu guarda-chuva molhado, não se preocupe pode entrar e quando voltar ele ainda estará lá te esperando. Não vi uma única casa com grades nas janelas, pouquíssimas tem muros e garagens, sim os carros também ficam ao lado ou em frente das casas e próximos das bicicletas.

O comércio freqüentemente trabalha de domingo a domingo, as fábricas também podem trabalhar sábados, domingos e feriados, seja para compensar dias em que ficarão paradas, seja para fazer estoque de peças, o correio central que fica perto de casa também costuma trabalhar de domingo a domingo, pelo que me contaram os bancos trabalham de segunda a sábado. Não sei se é uma tradição em todo o país, mas aqui em Okazaki como tem máquina que vende bebida, praticamente uma a cada 200 metros, e vez por outra quando estou caminhando me surpreendo comprando uma garrafinha de fanta uva ou chá gelado, em média custam 120 ienes (2 reais).
O silêncio deve ser sempre respeitado, no regulamento do meu prédio é proibido lavar roupa na máquina antes das 07:00 e após às 22:00, não é permitido fazer churrasco nem convidar grupos de amigos para comemorações barulhentas, jogadores de truco e rpg não são bem quistos por aqui. Quando estiver em casa tome cuidado com o traje que está vestindo, já houve casos onde as pessoas ficavam na sacada trajando apenas bermuda e foram denunciadas por japoneses, andar na rua sem camisa é tido como imoral, e pode ocasionar repreensão ou mesmo multa. Quando estiver na rua não dê beijos calientes, amassos ou carinhos ousados em sua contraparte, mesmo que sejam casados, o que você faz “DENTRO” de sua própria casa é problema seu, na rua é problema da sociedade.

Os homens são bem relaxados na forma de vestir, já as mulheres adoram misturar e gastar (e como gastam), devido ao alto poder aquisitivo é praticamente impossível encontrar uma japonesa que não esteja portando uma sacola, bolsa ou embrulho de compras, aqui existe tudo o que a moda tem condições de oferecer, no entanto haja mau gosto, vi cada coisa que fiquei de queixo caído, freqüentemente encontro mulheres usando meias compridas (tipo meião de jogador de futebol) na cor preta ou azul marinho com ou sem faixa rosada, saias que parecem camisolas até a altura dos joelhos, outra que parecia ter sido tirada de uma cortina de janela, as japonesas têm uma mania com o cabelo, talvez por terem naturalmente a mesma cor, adoram fazer tinturas que muitas vezes não combinam com sua pele, mas enfim os cabeleireiros devem ficar felizes com os ganhos que alcançam. Outro dia no supermercado, estava na fila para pagar as compras quando reparei numa japonesa à minha frente, a moça trajava uma calça jeans boca de sino desbotada, a calça era muito comprida e a barra cobria totalmente o tênis da mulher, quando caminhava uns 10 cm de tecido excedente arrastavam pelo chão, como se não bastasse ela fez a seguinte tintura no cabelo: o alto era castanho médio (devia ser o natural dela), nas pontas era um castanho bem claro, quase louro, no meio tinha umas partes avermelhadas, como se ela tivesse levado uma paulada na cabeça e parte do sangue escorrido para os fios. Homens adoram chinelos e sandálias, desde que cheguei ainda não vi uma única pessoa usando terno na cidade, disseram-me que em Tóquio é normal usar terno com tênis. Também parece haver certo fascínio pelo trajar americano, calças jeans desbotadas e rasgadas, tênis all star (bem caros por aqui), acho que a única regra da moda japonesa é: “não estando pelado, tudo bem”.
Via de regra, as pessoas que usam piercing, brincos e adornos muito chamativos não são bem vistas, tatuagens até são permitidas com moderação, se você tiver tatuagem no braço inteiro, certamente terá de usar camisa de manga comprida no seu local de trabalho, em algumas fábricas mulheres são proibidas de usar maquiagem pesada ou mesmo pintar as unhas da mão, saias até são permitidas mas não podem ser mini ou micro. Você deve sempre manter as camisas para dentro da calça ou saia, não é só pela questão estética, as pontas das blusas podem enroscar nas linhas de montagens e danificar o mecanismo, atrasar a produção ou mesmo causar acidentes mais sérios com as pessoas.

Apesar de o Japão ser adiantado em vários aspectos, numa coisa o Brasil leva grande vantagem, refiro-me aos lançamentos cinematográficos, Quarteto Fantástico 2 teve sua estréia aqui uns 4 meses depois de ter sido lançado no Brasil, e isso parece ser normal, ainda não consegui descobri por que. A programação televisiva também pareceu de qualidade sofrível, muitos programas de auditório tipo gincanas, karaokes e culinária, a despeito de ainda exibir vila sésamo, a tv nipônica ainda tem muito que melhorar.

Outro fator curioso sobre a cultura japonesa reside no fato de não ser comum assinar documentos, e como se faz então? Bem você manda fazer um inkan (carimbo) com seu nome escrito em kanjis, este carimbo é pequenino e de formato circular ou levemente ovalado, depois o mesmo é registrado junto a um órgão oficial e valerá como assinatura, bastando aplicá-lo sobre o papel que deseja oficializar, tenha muito cuidado com este carimbo, se o perder ou for roubado, quem utilizá-lo em compras e contratos trará sérias complicações ao dono do inkan. Confeccionar o inkan e solicitar junto à prefeitura seu gaikokujin toroku (carteira de identidade para estrangeiro), são as duas primeiras providências para aqueles que desejam se estabelecer no país.

Por fim, mas não menos importante, os brasileiros assim como os japoneses tem pessoas boas e más, trabalhadoras e preguiçosas, não foi uma nem duas vezes que vi um japonês meter a mão na linha de montagem e soltar uma engrenagem, desregular uma prensa, ou mesmo derrubar algo, também há casos de japoneses que não respeitam a coleta de lixo e culpam os brasileiros que moram nas imediações, na minha primeira semana na sony um dos banheiros masculinos apareceu pichado em português, para os chefões isso era uma “prova” de ter sido feito por brasileiros, mas se eu consigo escrever alguns kanji, por que não um japonês escrever caracteres em português? É preciso ter muito cuidado nas suas ações, por ser brasileiro você será sempre uma referência, se vai ser positiva ou negativa dependerá de seu esforço.