Trabalho na sony de Kota (ou Koda), a pronúncia pode mudar conforme o japonês que fala, mas a escrita é sempre a mesma, esta unidade tem 30 anos de idade e situa-se a pouco mais de 35 minutos de caminhada de meu apartamento, também soube que é uma das maiores do país, na entrada principal lemos em letras garrafais as seguintes palavras: Koda Tec - Campanha ZD (zero defect), atualmente fazemos as câmeras fotográficas digitais ciber shot e as filmadoras com Hd. Estimo que sejamos uns 5.000 funcionários, deste total pelo menos 50% são brasileiros, espalhados por várias empreiteiras, só a minha contratou quase 1.000 brasileiros. Trabalho no porão, onde uns 80% são brasileiros, mais precisamente na sessão onde são feitas as caixas metálicas que protegem as máquinas fotográficas ciber shot, ela é feita de alumínio escovado e o processo de sua fabricação me impressionou muito, infelizmente por razões óbvias não posso fotografar nada por lá, de forma beeeemmmm sucinta é assim que funciona:
1) Uma bobina de alumínio com 330 kg é encaixada num conjunto de prensas, dispostas em linha, elas cortam e fazem o tratamento inicial nas peças, depois que cada placa chega até o meu setor, deve ser rigorosamente avaliada, qualquer arranhão, mancha ou deformidade, mesmo que de alguns milímetros condena imediatamente a peça.
2) Da minha mão a peça faz um passeio por um tanque de água com um esmeril, é feita uma nova lavagem e escovamento da placa.
3) A placa recebe um tratamento químico para reforçar o alumínio tornando-o menos maleável. Logo depois um laser de alta potência imprime um número de registro na superfície da placa, ele é muito poderoso e segundo me avisaram, olhar prolongadamente para o reflexo dele numa parede poderá deixá-lo cego.
4) Agora a peça recebe um banho de ácido para tornar sua superfície mais propícia à pintura, a seguir é pintada, aqui temos duas opções de cor, preto ou prata.
5) São gravados alguns dizeres na superfície da peça e ela é envernizada, depois segue para um superforno de cerâmica, onde será feita secagem final.
6) Novas avaliações e detalhes ainda serão feitos, mas já serão fora do meu setor.
Para que tenham uma idéia de como é o local onde trabalho, basta assistirem ou lembrarem-se dos minutos finais de O Exterminador do Futuro 1, quando Sarah Connor invade as instalações da ciberdyne e luta contra o robô assassino, é exatamente aquilo, tirando é claro o robô assassino, o Michael Biehn e a Linda Hamilton. A rotina é dura, ficamos de pé quase todo o tempo, fora os 40 minutos de almoço e 2 intervalos de 10 minutos ao longo do dia, como estamos com um modelo novo e a linha de montagem está a pleno vapor, atualmente meu setor trabalha 24 horas / dia, revezando as turmas em dia e noite, freqüentemente somos requisitados para fazer hora extra, na minha primeira semana, fiz uma média de 3 horas extras por dia, entrava às 08:00 da manhã e saía às 08:00 da noite. Atualmente fico revezando nos horários, numa semana trabalho das 08:15 da manhã até as 20:30, na outra semana mudo para as 20:30 até as 08:15 da manhã seguinte, este tipo de jornada de trabalho é chamada Kotai.
Aqui os funcionários devem estar sempre prontos para o inesperado, as mudanças de horário, função e setor acontecem sem aviso prévio, num mesmo dia você poderá atuar em vários setores ou funções, nos meus primeiros 15 dias, já fui designado para executar umas 20 tarefas diferentes, isso é muito útil para a empresa quando, por exemplo, uma máquina ou linha de montagem quebra ou precisa de manutenção, assim você não ficará parado de braços cruzados, para o funcionário é bom por que não ficará fazendo repetidamente o mesmo trabalho. Por outro lado, é praticamente impossível assumir compromissos, você nunca saberá com certeza, a que horas será dispensado para ir embora para casa, horas extras podem ser colocadas ou removidas durante o expediente.
Meu contrato de trabalho especifica o valor da hora trabalhada, diferente do Brasil, aqui não existe o descanso semanal remunerado, férias remuneradas, 13º salário, nem mesmo a hora de almoço é paga, você só recebe pelas horas que efetivamente trabalhou e ponto final. As férias não são de 30 dias corridos, mas em pequenos grupos ao longo do ano, sendo que 10 dias/ano são garantidos ao funcionário ou comprados, por exemplo, meu setor faz uma compensação de horas, trabalhando 2 sábados em novembro, para ficar toda a semana do natal em casa. Faltar ou chegar atrasado não é uma falta grave, mas fazer isso e não avisar ao seu chefe imediato pode custar-lhe a cabeça, se tiver problemas a resolver e for se atrasar ou precisar sair mais cedo, informe ao seu chefe antes. Eventualmente algumas empresas concedem abonos por assiduidade ou prêmios quando as cotas de produção são atingidas, mas isso depende de cada setor negociar com a empresa.
Os japoneses começam aos poucos a “confiar” mais tarefas aos brasileiros, serviços que eram feitos exclusivamente pelos nativos já são ensinados aos nikkeis. Os chefes japoneses freqüentemente observam os trabalhadores do setor, às vezes chegam de mansinho, fingindo que analisam uma máquina ou peça, mas na verdade observam você, às vezes de forma bem clara ficam te vigiando, por vezes só de longe avaliando e conversando entre si, trocando impressões e críticas sobre os subordinados. Pode ser apenas impressão minha, mas no turno da noite eu reparei que os chefes japoneses somem de tempos em tempos, não ficam tão perto dos funcionários como no turno da manhã, sinceramente acredito que eles dão uma escapulida para tirar um cochilo e voltar mais tarde para fazer uma ronda e acompanhar os trabalhos.
O controle de qualidade das peças é muuuuuito rigoroso (por vezes até demais), sinceramente isto gera certa neura nos trabalhadores, de tempos em tempos parece melhor apontar um defeito inexistente numa peça a mandá-la para frente ininterruptamente. Existem casos onde a peça é condenada, minutos depois o mesmo “problema” não causa sua condenação, freqüentemente eu ouço: “Se piorar muito jogue fora”, mas quanto é MUITO? Como não sou pago para pensar, sempre que tenho dúvida mostro ao meu chefe de linha antes de mandar para frente. Já vi alguns casos onde o controle de qualidade deixou passar uma peça até os estágios finais de montagem, quando chegou lá houve um retorno, e todas as peças daquele lote tiveram de ser reavaliadas, gerando atraso de um dia na produção, também ouvi relato de um recall em câmeras filmadoras prontas para embarcar no porto de Nagoya, obrigando a sony a alugar um galpão, pagar trocentas horas extras à sua equipe, evitando assim que um grande carregamento prosseguisse com defeito de fabricação. Outra coisa curiosa, se não tiver o que fazer finja estar ocupado, pegue uma peça e fique olhando para ela, mesmo que não esteja procurando nada, mexa em alguma esteira ou linha de peças, varra o chão, faça alongamento, mas em hipótese alguma fique parado, ponha as mãos no bolso ou cruze os braços, estes atos são tidos como desleixo pelos nipônicos.
O mercado japonês é muito exigente com a qualidade dos produtos que são comercializados dentro de seu território, e isso vale para os produtos importados também. No entanto quando os japoneses exportam os seus produtos, nem sempre mantém a reciprocidade, fui aconselhado a nunca comprar produtos japoneses “tipo exportação”, primeiro são mais caros que os similares “nacionais”, segundo e principalmente, estes produtos costumam ser aqueles onde as peças apresentam algum defeito de fabricação, amassados, riscos etc. Nem sempre será um defeito crítico, mas dificilmente o equipamento terá a qualidade plena de funcionamento. Comprando produtos japoneses você poderá ter dificuldades com o manual, mas muitos dos produtos acabam tendo um manual lançado num site da internet em Inglês e até mesmo Português, é só uma questão de procurar ou ter um pouco de paciência de esperar.
Dentro da fábrica, perto do refeitório principal, existe uma quadra multi-esportiva que fica à disposição dos funcionários nos fins de semana, seu uso é gratuito e deve ser agendado um horário com a administração, quando fui olhar a instalação fiquei boquiaberto, é uma quadra com nível olímpico, tirando as arquibancadas.
Quanto à comida não tive muitos problemas, dentro da sony há um refeitório enorme, todos os dias há um prato brasileiro, pelo menos para os olhos nipônicos, às vezes eles fazem macarrão com salsicha, arroz e feijão, às vezes hambúrguer com batatas fritas, arroz e feijão, mas é aceitável, já comi coisa muito pior quando estive no exército, também temos os tradicionais yakissobas, peixes e culinária japonesa. Quando você vai ao refeitório utiliza um cartão chamado Edy, é parecido com um cartão de crédito, ele é lido pelas máquinas que ficam junto aos pratos que deseja comer, imediatamente fica registrado o valor que você consumiu, de tempos em tempos você pode recarregar com dinheiro o seu cartão, existem várias máquinas espalhadas pela fábrica com esta finalidade. As comidas japonesas parecem ser feitas com a preocupação da saúde, geralmente contém pouco sal e os doces pouco açúcar, mas aos poucos começo a me acostumar com isso, existem , no entanto algumas discrepâncias, a fanta uva é parecida com a do Brasil, mas a fanta laranja é intragável, tem a cor e o gosto de cebion. O único senão do refeitório é quando pegamos o turno da noite (Yakin), neste horário existem pouquíssimas opções, aí é melhor levar algo de casa.
Quando estou em casa existem bandejas de comidas prontas no mercado, os preços são um pouco mais altos que os praticados no refeitório da sony, mas sempre é possível formar um prato razoável por 500 ou 600 ienes, 8 ou 10 reais, além é claro dos inúmeros serviços de entrega de comida pronta, feitos por e para brasileiros, também na faixa dos 600 ienes. Existe uma pizzaria brasileira a 5 minutos de casa, mas os preços das pizzas são beeem salgadas, em média 40 a 50 reais cada, dependo do sabor e do tamanho.
domingo, 7 de outubro de 2007
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2 comentários:
Você está totalmente por fora se pensa que é tudo do jeito que a empresa dita e acabou...
caso tu não saiba, nós temos direitos trabalhistas aqui, igual no brasil, que nos garante férias remuneradas obrigatorias por ano de 10 dias, folgas remuneradas...
esse negocio de koutai ai é só pra estragar tua saude e vc não ganha quase nada, melhor mesmo é trampar num periodo unico....
Pare de enganar as pessoas dizendo que aqui é assim, e etc...fale dos direitos tb....eu mesmo já arranquei 320,000 ienes de uma empreiteira que trampei pq não me pagou as férias remuneradas prevista em lei e 12 horas extras, liguei no sindicato e pra não colocar um processo, foi feito um acordo e foi me pago essa indenização pelos danos causados.
Acorda, tem que seguir as regras da empresa certinho, agora não aceite abusos nunca!!
e hora extra não é obrigatório, vc só faz se quiser...é LEI!!!
e até pra mandar embora tem que ter carta assinada por escrito e motivo justificavel, além de ter aviso previo pago antes ou cumprido os 30 dias....
mas pelo visto vc não sabe nada sobre o japão.
Outra coisa:
vc compara muito o valor de uma pizza ou produtos em geral no valor de ienes convertido em reais...isso é totalmente equivocado, já que vc não ganha em reais e vai pagar em ienes e sim de ienes pra ienes.
o que tem que comparar é o poder de compra de valox `X`
exemplo: 3,000 ienes tem o mesmo poder de compra como se fosse 30,00 dolares, ou 30,00 reais....
assim como 100 ienes é como se fosse 1,00
por isso uma pizza não custa 40,00 e 50,00 reais e sim de 25,00 a 35,00 (2,500 a 3,500)
dessa forma vc está se equivocando, pois não ganha em reais e sim em ienes.
esquece os reais, vc não está no brasil e sim no japão
!
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