Não acredito que exista no planeta terra uma sociedade perfeita, afirmo isso mesmo sem conhecer todos os países do mundo, mas os japoneses se esforçam para manter um mínimo de ordem e civilidade no trato com as pessoas, mesmo nas camadas mais pobres. Ainda não fiz um passeio completo pela cidade de Okazaki, mas não vi (pelo menos até agora) nenhum mendigo, fosse na rua, fosse sob as pontes ou em alguma passagem subterrânea, o que atesta o alto poder aquisitivo da sociedade japonesa.
Quando você faz uma compra (independente do montante e da quantidade de itens), a pessoa que estiver operando a registradora repete em japonês o valor que está sendo somado pela máquina, assim você pode acompanhar visualmente na tela do caixa e sonoramente, ao final é dito o total apurado, quanto você está pagando e quanto será o seu troco. Situado uns 10 minutos de distância à pé da minha casa, existe um shopping chamado JUSCO, mas a pronúncia correta para os japoneses é JASCO, nele temos lojas de eletrodomésticos, roupas, calçados e material esportivo, existe uma loja no 2º andar ou para os japoneses 3º pavimento, aqui não existe o térreo, o nosso primeiro andar é contado como segundo andar para os japoneses, bem voltando ao assunto, existe uma loja neste shopping que vende muitos instrumentos musicais, especialmente violões, baixos, guitarras e teclados, no canto esquerdo da loja há um estúdio onde os clientes podem tocar os instrumentos que desejam levar, acho que você também pode reservar um horário e trazer seus instrumentos de casa para tocar, olhando pela janela vi uma linda bateria, guitarras e baixos, lá dentro 3 japoneses formavam sua banda. Também neste shopping há uma grande loja de departamentos, na seção de brinquedos encontrei uma prateleira repleta de bonecos das antológicas séries dos Ultraman, lá estavam Ultraman, Ultraman Jack, Ultraseven, Ultraman Tarô e claro seus inimigos mortais, Bemlar, Baltan, Seamon, Stelar etc. É claro que também temos seções dedicadas aos transformers, pokemons, e tantos outros bichos que povoaram o folclore televisivo do Japão e do mundo.
Aqui existe um centro de apoio ao estrangeiro com cursos de japonês, voltados especialmente brasileiros, os professores são japoneses e gabaritados para a função, o custo é de 1000 ienes (uns 16 reais) / mês com seis meses de duração, aulas aos sábados das 09:00 às 12:00 horas, brasileiros aqui são como os agentes smith de matrix 3, aparecem em cada esquina, em alguns dias e horários, os brasileiros são maioria no mac donald´s perto de casa, ele já é um point na cidade. Os japoneses atualmente parecem mais interessados em integrar as comunidades de estrangeiros, oferecendo atividades, palestras e muito material de interesse comunitário é impresso em várias línguas, como guias turísticos, calendário de lixo, datas e eventos festivos etc.
Apesar do alto nível de escolaridade do país, e do fato de muitos japoneses terem conhecimento de inglês, usar este idioma para comunicar-se não é uma tarefa das mais fáceis, a razão para esta dificuldade é a pronúncia nipônica para as palavras de língua inglesa, por exemplo: espalhado pela cidade existe uma rede de lojas de conveniência (pode-se comprar comida, bebida, pagar contas ou passar um fax lá), seu nome é “sacroquê” (fonética), seu logotipo é a letra K dentro de um círculo, daí eu consegui traduzir que sacroquê = circle K. Outro caso: trabalho para uma empreiteira chamada “suri-emu” (fonética), seu logotipo são 3 letras M (machine, man e money), sim isso mesmo, suri-emu é o mais perto possível que o japonês consegue dizer para three M. Sabonetes “Lux” = “Raxo”, não existe o fonema “L” no Japão, o U tem a pronúncia do A e japoneses não gostam de consoantes sozinhas no fim das sílabas, logo enfiam um Ô depois do X. Poderia citar vários outros exemplos, visto que no Japão muitas palavras de língua estrangeira estão incorporadas ao dia a dia, nos comerciais de tv, mas acho que todos já perceberam que as coisas aqui podem ser mais fáceis do que aparentam, no entanto um pouco mais complicadas do que poderiam.
Para os ocidentais a grande dificuldade reside na leitura dos kanjis, meu nome é formado por duas palavras apenas, e mesmo assim são utilizados kanji e katakana (dois alfabetos diferentes), Tanaka (o sobrenome sempre vem primeiro) é de origem japonesa portanto é grafado com kanji, Flavio é de origem estrangeira, portanto deve ser usado o katakana, a fonética do meu nome quando um japonês lê seria mais ou menos assim TA-NA-KA FU-RA-BIO, lembrem-se que não existem os fonemas “FLA”, “L” ou “V” no idioma japonês, eles têm um bloqueio natural de emitir estes sons. Também gostaria de salientar que nos aeroportos, estações de trem, placas de trânsito etc, existe uma grande quantidade de informações em inglês e romaji (forma de escrever palavras do japonês sem usar os kanji, forma ocidental), de modo que os estrangeiros tenham uma razoável capacidade de entendimento.
Falando com brasileiros que residem aqui há bastante tempo, descobri que antigamente notava-se certo preconceito quanto aos brazucas, hoje isso diminuiu, nós geramos renda então temos de ser tratados com polidez também. Ouvi relatos de casos onde brasileiros eram identificados até pelos alto-falantes da loja, no momento em que pisavam dentro do estabelecimento, era uma forma de “alarme” aos vendedores, isso parece não existir mais, no entanto se olhar com discrição para trás, verá que um japonês sempre estará por perto “observando sua conduta”, sinceramente isso não me incomoda, podem olhar-me o quanto quiserem. Aquela história de que japonês joga no lixo muitas coisas boas “FOI” verdade, antigamente não existiam lojas de usados, mas com o grande número de brasileiros aqui, os japoneses perceberam que poderiam conseguir recuperar parte do que gastavam ao comprar um bem, hoje os games, pcs, dvds e demais objetos são levados às lojas de usados, você ainda consegue achar coisas boas a bons preços, mas não será grátis, lembrem-se que aqui as novidades pipocam constantemente, o novo de hoje será obsoleto em 30 ou 40 dias.
O japonês tanto quanto ou mais que o inglês preza a pontualidade, o ônibus da sony que passa perto de casa, chega ao ponto religiosamente entre 07:30 e 07:35, quando vou no turno da manhã, cada pessoa que apresenta o crachá da sony é respondida com um cumprimento pelo motorista, quando entram ou saem da fábrica, cada ônibus é saudado com uma continência por quem estiver na portaria, quando embarcarem e desembarcarem, todos os passageiros deverão respeitar a ordem da fila, ou seja, se você é o 5º da fila no ponto do ônibus será o 5º a embarcar, se estiver sentado na última cadeira, será o último a descer do ônibus quando este chegar na fábrica. Se for dito para estar num lugar às 08:00 horas, isto significa exatamente 08:00, não 08:05, muito menos 08:25, quando é determinado para terminar o trabalho às 08:30, nem pense em deixar o seu posto às 08:29, aqui costuma-se dizer que podemos acertar o relógio quando os trens passam, e pelo que vi não é exagero. Quando um trem está atrasado, isto é informado pelos painéis digitais aos passageiros nas estações, detalhando os motivos. O sistema ferroviário do Japão é provavelmente o mais extenso do mundo, talvez perca apenas para os EUA, para que tenham uma idéia, o metrô de Tóquio deve ser umas 15 ou 20 vezes maior que o de São Paulo, existem estações com até 5 ramais operando em paralelo, todos os aeroportos possuem estações em seu interior, além das conexões para os Shinkansen (trens bala), e os ramais regionais (como é o caso de Okazaki).
Diariamente vejo as crianças indo à escola, e seus uniformes de escola pública são bem clássicos, as crianças menores sempre usam boné amarelo, as meninas adolescentes freqüentemente vestem-se como as personagens do animê sailor moon, por via das dúvidas se elas gritarem algo, começarem a emanar auras de energia ao redor de si, vou sair correndo para o outro lado. Outras escolas adotam uma capacete branco como parte do uniforme, quem já assistiu a seriados de Ultraman e afins deve lembrar-se como são. Também é comum (e já está sendo copiado por brazucas) o uso de máscaras quando as pessoas estão gripadas, desta forma diminui-se a chance de espalhar surtos virais.
Os japoneses respeitam as propriedades dos outros, muitos aqui tem bicicleta, e por motivo de espaço elas não são guardadas em casa, e onde elas ficam então? Acertou quem respondeu que elas ficam na rua ou na calçada em frente de casa, e ficam assim soltas. Como é? Soltas na rua sem cadeado ou corrente? Isso mesmo, sem cadeado ou corrente e ninguém pega, quando você vai ao trabalho, escola ou shopping também existem locais para estacionar as bicicletas e pode contar que ao sair ela estará onde você a deixou, adiante explicarei com mais detalhes por que não é comum roubar bicicletas por aqui. Quando você vai a algum lugar com guarda-chuva, também existe um local na entrada do estabelecimento para deixar seu guarda-chuva molhado, não se preocupe pode entrar e quando voltar ele ainda estará lá te esperando. Não vi uma única casa com grades nas janelas, pouquíssimas tem muros e garagens, sim os carros também ficam ao lado ou em frente das casas e próximos das bicicletas.
O comércio freqüentemente trabalha de domingo a domingo, as fábricas também podem trabalhar sábados, domingos e feriados, seja para compensar dias em que ficarão paradas, seja para fazer estoque de peças, o correio central que fica perto de casa também costuma trabalhar de domingo a domingo, pelo que me contaram os bancos trabalham de segunda a sábado. Não sei se é uma tradição em todo o país, mas aqui em Okazaki como tem máquina que vende bebida, praticamente uma a cada 200 metros, e vez por outra quando estou caminhando me surpreendo comprando uma garrafinha de fanta uva ou chá gelado, em média custam 120 ienes (2 reais).
O silêncio deve ser sempre respeitado, no regulamento do meu prédio é proibido lavar roupa na máquina antes das 07:00 e após às 22:00, não é permitido fazer churrasco nem convidar grupos de amigos para comemorações barulhentas, jogadores de truco e rpg não são bem quistos por aqui. Quando estiver em casa tome cuidado com o traje que está vestindo, já houve casos onde as pessoas ficavam na sacada trajando apenas bermuda e foram denunciadas por japoneses, andar na rua sem camisa é tido como imoral, e pode ocasionar repreensão ou mesmo multa. Quando estiver na rua não dê beijos calientes, amassos ou carinhos ousados em sua contraparte, mesmo que sejam casados, o que você faz “DENTRO” de sua própria casa é problema seu, na rua é problema da sociedade.
Os homens são bem relaxados na forma de vestir, já as mulheres adoram misturar e gastar (e como gastam), devido ao alto poder aquisitivo é praticamente impossível encontrar uma japonesa que não esteja portando uma sacola, bolsa ou embrulho de compras, aqui existe tudo o que a moda tem condições de oferecer, no entanto haja mau gosto, vi cada coisa que fiquei de queixo caído, freqüentemente encontro mulheres usando meias compridas (tipo meião de jogador de futebol) na cor preta ou azul marinho com ou sem faixa rosada, saias que parecem camisolas até a altura dos joelhos, outra que parecia ter sido tirada de uma cortina de janela, as japonesas têm uma mania com o cabelo, talvez por terem naturalmente a mesma cor, adoram fazer tinturas que muitas vezes não combinam com sua pele, mas enfim os cabeleireiros devem ficar felizes com os ganhos que alcançam. Outro dia no supermercado, estava na fila para pagar as compras quando reparei numa japonesa à minha frente, a moça trajava uma calça jeans boca de sino desbotada, a calça era muito comprida e a barra cobria totalmente o tênis da mulher, quando caminhava uns 10 cm de tecido excedente arrastavam pelo chão, como se não bastasse ela fez a seguinte tintura no cabelo: o alto era castanho médio (devia ser o natural dela), nas pontas era um castanho bem claro, quase louro, no meio tinha umas partes avermelhadas, como se ela tivesse levado uma paulada na cabeça e parte do sangue escorrido para os fios. Homens adoram chinelos e sandálias, desde que cheguei ainda não vi uma única pessoa usando terno na cidade, disseram-me que em Tóquio é normal usar terno com tênis. Também parece haver certo fascínio pelo trajar americano, calças jeans desbotadas e rasgadas, tênis all star (bem caros por aqui), acho que a única regra da moda japonesa é: “não estando pelado, tudo bem”.
Via de regra, as pessoas que usam piercing, brincos e adornos muito chamativos não são bem vistas, tatuagens até são permitidas com moderação, se você tiver tatuagem no braço inteiro, certamente terá de usar camisa de manga comprida no seu local de trabalho, em algumas fábricas mulheres são proibidas de usar maquiagem pesada ou mesmo pintar as unhas da mão, saias até são permitidas mas não podem ser mini ou micro. Você deve sempre manter as camisas para dentro da calça ou saia, não é só pela questão estética, as pontas das blusas podem enroscar nas linhas de montagens e danificar o mecanismo, atrasar a produção ou mesmo causar acidentes mais sérios com as pessoas.
Apesar de o Japão ser adiantado em vários aspectos, numa coisa o Brasil leva grande vantagem, refiro-me aos lançamentos cinematográficos, Quarteto Fantástico 2 teve sua estréia aqui uns 4 meses depois de ter sido lançado no Brasil, e isso parece ser normal, ainda não consegui descobri por que. A programação televisiva também pareceu de qualidade sofrível, muitos programas de auditório tipo gincanas, karaokes e culinária, a despeito de ainda exibir vila sésamo, a tv nipônica ainda tem muito que melhorar.
Outro fator curioso sobre a cultura japonesa reside no fato de não ser comum assinar documentos, e como se faz então? Bem você manda fazer um inkan (carimbo) com seu nome escrito em kanjis, este carimbo é pequenino e de formato circular ou levemente ovalado, depois o mesmo é registrado junto a um órgão oficial e valerá como assinatura, bastando aplicá-lo sobre o papel que deseja oficializar, tenha muito cuidado com este carimbo, se o perder ou for roubado, quem utilizá-lo em compras e contratos trará sérias complicações ao dono do inkan. Confeccionar o inkan e solicitar junto à prefeitura seu gaikokujin toroku (carteira de identidade para estrangeiro), são as duas primeiras providências para aqueles que desejam se estabelecer no país.
Por fim, mas não menos importante, os brasileiros assim como os japoneses tem pessoas boas e más, trabalhadoras e preguiçosas, não foi uma nem duas vezes que vi um japonês meter a mão na linha de montagem e soltar uma engrenagem, desregular uma prensa, ou mesmo derrubar algo, também há casos de japoneses que não respeitam a coleta de lixo e culpam os brasileiros que moram nas imediações, na minha primeira semana na sony um dos banheiros masculinos apareceu pichado em português, para os chefões isso era uma “prova” de ter sido feito por brasileiros, mas se eu consigo escrever alguns kanji, por que não um japonês escrever caracteres em português? É preciso ter muito cuidado nas suas ações, por ser brasileiro você será sempre uma referência, se vai ser positiva ou negativa dependerá de seu esforço.
domingo, 7 de outubro de 2007
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2 comentários:
rsrsrsrsr........ bom ver q vc ñ perdeu o seu jeito de ser Tanaka! estou feliz por estar dando td certo com vc! e espero receber sempre noticias boas de vc! mas e ai no seu tempo livre oq vc assiste de bom ai na tv japonesa rsrsrsr....... sabe como é né é o q eu curto e estudo! inté mais e se cuida mano!
hahahahah...li esse comentário e na mesma hora lembrei do que te disse uns dias antes de vc embarcar pro Japão. Mais precisamente .... sobre as ROUPAS, não foi? Êêêêta irmã crítica, heim?
bjs,
Lilian
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